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Oscar DAmbrosio é jornalista, crítico
de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra
do pintor Naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
Extraído do enderêço http://www.artcanal.com.br/oscardambrosio
Há artistas que encantam pelo trabalho excepcional.
Outros fascinam pela personalidade poderosa, que supera até
os aspectos formais do que produzem. Poucos, no entanto, unem
um trabalho de grande qualidade a autênticas lições
de vida. A finlandesa Eila, radicada no Brasil desde 1929,
está nesse seleto último grupo.
Obra consistente e vida exemplar se mesclam e entrelaçam.
Respeitada como criadora de coloridas tapeçarias, principalmente
no Brasil e em seu país natal, Eila é, na verdade,
uma artista completa, que realiza, em seus quadros, pouco
conhecidos, plenos de características da arte naïf,
trabalhos de intensa poeticidade, em que se destaca a facilidade
de trabalhar com as cores e com as linhas.
Ao não vender os quadros que começou a realizar
na década de 1960, em tinta a óleo, ela abandonou
essa técnica, passando a se dedicar à tapeçaria,
que logo teve grande aceitação. Nesse suporte,
realiza os desenhos e marca com quais tecidos eles devem ser
preenchidos pelos funcionários especializados em trabalhar
com tecelagem. Assim, ganhou certo renome e deixou esquecida
a pintura, onde revela características fascinantes,
principalmente naquelas que retrata cenas da própria
família e que se nega a vender.
Esse diálogo, nem sempre harmonioso entre tapeçarias
e quadros, é mais um episódio de uma vida repleta
de aventuras. Nascida em Tampere, sudoeste da Finlândia,
hoje com cerca de 170 mil habitantes, em 6 de julho de 1916,
Eila Helena Ampula, de sua infância, lembra do avô
paterno, sapateiro, e do bom-humor do avô materno.
Do primeiro, recorda os momentos que passava brincando entre
sapatos; e, do segundo, puxou uma inesgotável capacidade
de ver o lado engraçado das mais diversas situações,
como o hábito finlandês de tomar apenas um banho
por semana ou ainda a tradicional sauna, em que homens, mulheres
e crianças compartilhavam, sem nenhum tipo de censura,
o mesmo ambiente. "Recordo que queria ser bailarina clássica,
mas nunca demonstrei grande entusiasmo para seguir a carreira",
conta.
Quanto ao pai de Eila, trabalhava como sapateiro e construtor
de casas de madeira, dançava, fazia versos, era ginasta
e ator amador; enquanto a mãe era aprendiz numa padaria.
A futura artista confessa ainda que foi uma aluna medíocre.
"Não me interessava pelos assuntos ensinados",
afirma. Quando não passou para o quarto ano, decepcionou
a família que, envergonhada, encontrou mais um motivo
para o já existente desejo de buscar desafios e escapar
do inclemente frio finlandês.
O fracasso de Eila na escola coincidiu com as promessas de
mundo melhor feitas pelo casal naturalista finlandês
Toivo e Liisa Uuskallio, imigrantes que buscavam uma terra
no Brasil para fundar uma colônia em que predominasse
o trabalho na lavoura e a filosofia vegetariana, pois ele
havia se curado de uma tuberculose graças a um rígido
regime alimentar que excluía a carne.
Os finlandeses compraram então a fazenda Penedo, distrito
de Itatiaia, Rio de Janeiro, mas o líder, dentro de
sua filosofia vegetariana, abriu mão do gado, apesar
de ele estar incluído no preço. Para imigrar,
era preciso dinheiro para pagar um lote de terra. O pai de
Eila vendeu então as casas que construía na
Finlândia, começando a aventura da imigração
para família.
Em 1929, após 18 dias de viagem de Helsinque ao Rio
de Janeiro, Eila, então com 13 anos, acompanhada dos
pais e de um primo com a respectiva esposa, integrava um grupo
de sete imigrantes que iria se juntar aos já existentes
na região. Ao chegar ao porto, eles foram levados para
a Ilha das Flores, onde foram vacinados contra doenças
tropicais e dormiram num recinto com camas de beliche, com
colchão e travesseiros, sem lençol ou fronha,
comendo arroz e feijão misturados, com colher.
Chegando a Penedo, uma decepção. Os imigrantes
encontraram uma terra empobrecida pelo café, vazia,
sem árvores; somente com capim e formigas. Com a escassez
de recursos, sacos vazios de trigo eram transformados em vestidos,
camisas, calças, cuecas e pijamas.
O trabalho na lavoura, dentro dos princípios naturalistas
do grupo, era pouco produtivo, mas rendeu a Eila o primeiro
desejo de pintar. "Era uma cena hilariante. As mulheres
trabalhavam nuas de chapéu de palha, catando ervas
daninhas, enfrentando formigas, moscas e pernilongos. Depois,
quando perceberam as dificuldades, passaram para o extremo
oposto, vestindo meias, sapatos e calça e blusa de
manga comprida", afirma.
Nessa situação de comida difícil, insatisfação
com a moradia e com o ambiente, muitos finlandeses abandonaram
a região e outros voltaram para o país natal.
Algumas famílias passaram então a hospedar visitantes,
iniciando a tradição do turismo na região
de Penedo.
O pai de Eila, porém, decidiu permanecer e pediu a
Uuskallio emprego para a filha. Uma vaga foi conseguida, como
faxineira, em São Conrado, no Rio de Janeiro. A idéia
era facilitar a aprendizagem de português, o que não
aconteceu, pois a casa tinha patrões ingleses, governanta
francesa e jardineiro luso. Em seguida, trabalhou numa casa
da alta sociedade, no bairro de Laranjeiras; e , logo depois,
atuou como cozinheira, em Barra do Piraí, onde fazia
pão e seguia receitas de um livro em inglês,
idioma que aprendeu nessa circunstância.
Foi, contudo, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, que
o destino de Eila mudou. Havia ali um instituto de massagem
e ginástica, em que a adolescente limpava, arrumava,
encerava, lavava, fazia café, servia, atendia e fazia
compras para a dona. Pela dedicação, acabou
recebendo o diploma de massagista sem ter assistido a uma
aula sequer e se iniciou na profissão, por necessidade,
num dia em que não havia outra pessoa para fazer o
serviço, preferindo fazê-lo ela mesma a perder
o cliente.
Enquanto isso, na Fazenda Penedo, comprada por Uuskallio
para ser loteada entre os colonos, a terra se negava a dar
frutas ou verduras. Muitos se reuniam ás escondidas
para tomar café e cachaça, proibido pelo líder
dessa comunidade espiritual-vegetariana. Em 1938, o pai de
Eila, perante essa situação, voltou para a Finlândia,
vendeu a última casa que havia construído e
comprou um sítio em Campo Belo, numa estrada que ia
da cidade à serra. "Escolheu esse lugar, porque,
segundo a convicção religiosa de meu primeiro
marido, com quem casei em 1935, na hora do fim do mundo, os
fiéis se salvariam indo para as montanhas", conta
a artista. "Posteriormente, ele passou a acreditar que
a salvação viria com discos voadores."
O casamento não foi o que Eila imaginava. A mãe
fazia pão e Eila vendia de porta em porta. "Vendia
pouco. Foi o pior serviço de minha vida", diz.
Carlos, o marido, foi contratado para administrar as fazendas
de uma usina de açúcar e álcool em Cambaíba,
em Campos, RJ. Lá, conviveu com calor, mosquitos e
sem divertimento algum, pois até o rádio o marido
via como uma manifestação do mal, um pecado.
Além disso, ele se apaixonou por outra mulher.
A separação, proposta por Elia, foi prontamente
aceita e a futura artista plástica conseguiu emprego
como duchista nas Termas do Hotel Copacabana Palace, no Rio
de Janeiro; mas, com a roupa sempre molhada, vivia resfriada.
Além disso, só podia visitar os filhos no fim
de semana. Carlos, enquanto isso, levara a amante para Vitória,
ES, com quem se reencontraria 14 anos depois, largou o emprego
e trabalhou como taxista, no Rio, e como motorista de caminhão
de um sítio em Campo Grande, onde se plantavam tomates.
Por amor aos filhos, Eila voltou a morar com o marido e, em
1950, quando ele conseguiu emprego como administrador de plantações
de cana-de-açúcar, na Usina Porto Real, perto
de Resende, todos se mudaram.
Enquanto tudo isso acontecia na vida pessoal de Eila, a colônia
finlandesa de Penedo naufragava. Até 1939, a região
se sustentava com a venda de cerca de cem mil mudas anuais
de laranjeiras enxertadas; mas, com a Segunda Guerra, esse
comércio acabou e a opção foi a criação
de galinhas e o artesanato de chapéus e chinelos. As
imagens desse trabalho permanecem cristalizadas em quadros
como Enxertando laranjeiras, de 1966, em que salta aos olhos
um traço fino e preciso, principalmente na figura da
direita, que dobra a cintura de maneira que a ortopedia não
permite, mas perfeitamente plausível dentro da ótica
naïf da artista.
Para reunir a comunidade, nasceu, em 1943, o Clube Finlândia,
que os pais de Eila administraram de 1950 a 1959. Justamente,
em 1950, Eila finalmente não suportou mais aquela vida
regrada, imposta pela religião do marido, cujos pais
eram Testemunhas de Jeová, e fugiu para o Rio de Janeiro,
ser massagista. "Do lado da cama dele, no chão,
havia uma capa, que ele rapidamente vestiria, quando o disco
voador viesse buscá-lo. Por tudo o que vi e passei,
sou alérgica a religiões em geral", declara.
"Diabo ou Deus, Céu ou Inferno, são apenas
palavras. Nada disto existe. São coisas inventadas
pelos homens. Naturalmente, há mistérios, mas
não esquento a cabeça com coisas tão
difíceis".
Mas a mesma indiferença não acontecia com a
arte. Incentivada pelo marido da professora Toivo Suni, desenvolveu
um talento inato para a pintura e chegou a participar, no
início daquela década, do Salão de Primavera,
em Resende, RJ, com quatro telas. Aqueles anos 1950 foram,
de fato, bastante agitados.
Nos primeiros sete anos dessa década, Eila dedicou-se
intensamente à profissão de massagista para
sobreviver. Em 1955, uma cliente, a sra. Poupon Proença
apresentou Eila ao pintor Portinari. "Levei quatro pinturas.
Ele me incentivou a pintar e disse que eu não precisava
de cursos para aprender a pintar. Iria aprender sozinha",
diz a artista em seu livro Eila: memórias da imigrante,
editado em 1997. "Agora sei que uma cor destrói
outra. Eu sempre achava e continuo a achar que eu aprendo
a fazer as coisas, que me interessam, sem ninguém me
ensinar. Esse encontro foi o passo mais importante da minha
vida. Mostrou a direção a seguir."
Ainda nos anos 1950, Eila chegou a fazer massagem em Darcy
Vargas, esposa do presidente Getúlio. "Não
consegui ver o presidente. Depois de um mês, ela me
dispensou. Não gostou de mim, nem eu dela. Não
vi o Getúlio nem uma vez, de modo que não pôde
seduzi-lo. Nem tentar", afirma a ex-massagista, com seu
tradicional bom-humor.
Quando morava no Rio de Janeiro, Eila também conheceu
um médico e pintor, que assinava suas obras como Sócrates.
"Fiz 30 quadros e ele vendeu oito, mas, na hora de pagar,
sumiu", lembra. Também nessa época realizou
algumas viagens pelo Brasil, ampliadas posteriormente, que
a levaram a conhecer locais com Salvador e Ouro Preto e Tiriós,
PA, quase fronteira com o Suriname, que serviram de matéria-prima
para seus trabalhos, como o de aves amazônicas ou imagens
do Nordeste ou do interior do Estado de Minas.
Em 1957, Eila conheceu seu segundo marido, Martti. Ela voltara
a morar em Penedo, numa casa sem luz elétrica, água
encanada ou banheiro interno. Era, porém, feita com
o próprio dinheiro, obtido como massagista. "Houve
épocas em que, como tinha muitos clientes, cheguei
a marcar, no Rio de Janeiro, as primeiras sessões às
5h30", conta.
A artista tentou viver de pintura, mas, como ninguém
comprava os quadros que pintava, ela desistiu de trabalhar
com tintas a óleo. "Comecei a realizar, com colher
de pedreiro, alto-relevos em tela de arame, com massa de concreto.
O resultado era muito pesado e não teve boa aceitação.
Martti ia e voltava do Rio com aquele peso todo", afirma.
Em 1964, surgiu um novo caminho. Eila começou a fazer
desenhos para serem usados em tapeçarias. "Comprei
um tear e cortava os tecidos de roupas velhas. Passei a elaborar
tapeçarias pequenas, que logo foram vendidas. Dediquei-me
então a essa atividade e cheguei a trabalhar com 19
funcionários na tecelagem", conta.
No ano seguinte, Eila expôs na Casa da Suíça,
no Rio de Janeiro. Em 1968, com as vendas realizadas no Wenner
Gren Center, de Estocolmo, Suécia, conseguiu pagar
metade de um apartamento em Copacabana. Enquanto a esposa
criava, Martti ficou como gerente, coordenando a compra de
tecidos, as exposições e as vendas dos trabalhos,
em Penedo e no Rio de Janeiro.
Em 1968, Eila voltou à Finlândia e à
sua cidade natal, Tampere, após 39 anos de ausência.
Confessa que não sentiu grande emoção,
a não ser pelas bonitas pinturas do artista Hugo Simberg,
na igreja local. Na década seguinte, recebeu sucessivas
homenagens. Foi nomeada, em 1971, cidadã de Resende;
e no ano seguinte, cidadã fluminense.
Em 1977, comprou uma casa de 750 m2 , em Penedo. "Sem
contrair dívidas", ressalta. Seu casamento com
Martti, porém, devido a problemas legais para o reconhecimento
da separação com o primeiro marido, só
ocorreu em 1986, com 70 anos, em uma festa que contou com
a presença do escritor mineiro França Júnior,
autor de Jorge, um brasileiro. "É bom mesmo, usa
poucos adjetivos e frases curtas", avalia a pintora.
Um outro episódio marcante na vida de Eila ocorreu
em 1980, quando o Brasil era presidido pelo general João
Batista de Oliveira Figueiredo, conhecido pela sua admiração
por cavalos. A artista assistiu, em Resende, a um desfile
do célebre regimento a cavalo Dragões da Independência.
Fez então uma tapeçaria com um soldado, conhecido
como "dragão", montado e uma bandeira. O
trabalho agradou e foi solicitado um maior, para decorar o
regimento em Brasília, DF. Ela fez um com nove cavalos,
nove homens e as nove bandeiras históricas do País.
O resultado estimulou o presidente Figueiredo a convidar
a artista para almoçar. Pensando que beber o mesmo
número de caipirinhas do mandatário seria educado,
Eila ficou bêbada na ocasião e disse que adorava
montar. Foi então convidada para visitar a Granja do
Torto, onde passou o maior vexame, pois só conseguiu
subir num cavalo, pouco maior que um cachorro, amparada por
dois soldados.
Quanto ao seu talento para as artes plásticas, Eila
é objetiva. "Tenho um pouco, talvez 5%. Sobre
isto, tenho que trabalhar, explorar o máximo. Uns 95%
de trabalho sobre os 5% de dom, dá bons resultados.
Estes cálculos não são meus, mas de artistas
maiores, como Picasso e Portinari", diagnostica. "Esse
negócio de esperar a chegada da tal inspiração,
espera-se sentado. É amadorismo, um profissional de
pintura é como um trabalhador qualquer. São
oito horas diárias. É assim que se aprende,
o resto é conversa. Infelizmente, nunca pude me dedicar
ao meu trabalho como devia. Mas também não me
considero artista com letra maiúscula. Produzo artigos
para decoração, nada mais".
A arte de Eila mostra o contrário. As tapeçarias
que desenha já receberam elogios do conceituado crítico
de arte Walmir Ayala: "Eila é um patrimônio
da nossa arte, coisa inteiramente nossa, por opção
pessoal dela, e pela alegria que acrescentou ao nosso cotidiano".
No entanto, o melhor de Eila está em sua pintura,
principalmente naqueles quadros que não coloca à
venda por representarem cenas de sua família. Uma dessas
cenas ocorreu no Clube Finlandês. "Erkki Nori tinha
enchido a cara e, deitado no chão do clube, fez xixi.
Armas Viitaniemi, que era policial na Finlândia, o botou
para fora. Começou uma confusão. Retratei isso
no quadro", conta. "Comigo é assim, não
sei inventar nada, é preciso ver a cena".
Após três filhos, dois netos, três cirurgias
plásticas, uma tapeçaria na embaixada da Finlândia
em Brasília e outra no altar da Igreja Escandinava
de São Paulo, SP, e uma exposição, em
1997, em Haapajärvi, Finlândia, realizada em homenagem
ao segundo marido, falecido há cinco anos, em que vendeu
mais da metade das obras e recebeu encomendas, Eila continua
realizando trabalhos de grande vigor. Naquele mesmo ano, também
se mudou para Paracucu, CE, onde, sozinha, longe da família
e dos companheiros de colônia, agüentou apenas
um mês. Decidiu voltar a Penedo, onde seu ateliê
é atração turística.
Nas tapeçarias, que enfocam as 14 estações
da Via Sacra; cidades como Olinda, Angra dos Reis e Ouro Preto;
santos; crianças brincando ou flores, destacam-se as
cores fortes, a harmônica combinação de
imagens e a variedade de tecidos, com temas que vão
de tucanos da floresta amazônica a uma tapeçaria
de grandes proporções sobre trabalhos rurais
na Finlândia do Século XIX.
Acima de tudo, Eila, embora negue, continua pintora. Realiza,
como vimos, os esboços de suas tapeçarias e
marca, com precisão e paciência, as cores e o
tipo de tecido a ser usado. Não tece, portanto, mas
pinta. Suas telas de imagens de empregados tecendo, penduradas
em seu ateliê, são arte naïf de primeira,
tanto pela precisa simplicidade dos traços como pela
economia de recursos. O mesmo ocorre quando retrata, com poucas
e precisas linhas, pessoas nas plantações de
laranjeiras ou um baobá.
No Clube Finlândia de Penedo, há dois painéis
de Eila. Ambos retratam o próprio clube e a atmosfera
dos bailes que ali se realizam até hoje, com as pessoas
dançando músicas típicas da Finlândia.
São seguramente dois dos melhores trabalhos da artista,
que se encaminhou para a tecelagem, mas que tem na pintura
sua vocação.
Autodidata, exímia no ato de retratar cenas de sua
família, como parentes em situações cotidianas,
Eila trabalha a tinta a óleo bem diluída, dando-lhe
uma aparência praticamente de guache. Outro fator que
desperta a curiosidade dos brasileiros sobre seu trabalho,
mas que é visto sem susto na Finlândia, é
a liberdade como enfoca a genitália. Em seu livro de
memórias, por exemplo, mostra pênis desproporcionais
de companheiros finlandeses em privadas coletivas ou em saunas
prática comum naquele país públicas.
Isso é feito sem pudor, com total naturalidade, como
ocorre com um de seus trabalhos mais recentes, Adão
e Eva. Os dois aparecem nus, no Paraíso, e a serpente,
à direita, oferece à primeira mulher do mundo,
o fruto proibido. Ao observar o trabalho, a própria
Eila se pergunta se os retratados teriam umbigos, pois não
nasceram de parto natural. Segundo a Bíblia, Adão
provém do barro modelado por Deus, que lhe deu o sopro
divino da vida; e ela, da costela de seu companheiro.
Intrigada com a questão, Eila mandou uma carta aos
jornais da região, aguardando o posicionamento dos
leitores. Isso sem mencionar que um médico, ao contemplar
a obra, observou que a proporção do desenho
do pênis e o posicionamento da bolsa escrotal de Adão
estaria longe da realidade. Essas polêmicas identificam
bem a vitalidade da artista e da sua obra. "Gosto de
voar alto, sobressair da massa, ser notada, ser alguém",
auto-define.
Criadora de desenhos de tapeçarias para viver e artista
das cores e tintas por vocação, Eila não
pode ser vista apenas como produtora de aves típicas
brasileiras ou imagens de trabalhadores da Finlândia.
Quando ela se volta para as imagens oriundas de sua rica experiência
pessoal, seu trabalho como pintora é de altíssimo
nível.
Eila tem o talento de saber fixar na tela imagens perdidas
no tempo que seu talento resgata com engenho, arte e pitadas
de bom-humor, marca principal da cativante personalidade de
uma artista que, neste século que se inicia, poderia
voltar às tintas, abandonadas, nas ultimas décadas,
em função da arte de desenhar para a elaboração
de tapeçarias, uma arte mais comercial e lucrativa,
mas, não por isso, menos digna.
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